Caio Carrara Programador para o resto da vida. Falando sobre software e a vida.
Published

Wed 05 July 2017

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Carta aberta a Rosie, da Serenata.

Importante

Para melhor compreensão da carta, sugiro que você 1) conheça o projeto Serenata de Amor 2) leia o comunicado Rosie no Twitter: o momento mais transparente de um projeto sobre transparência. Também não deixe de acompanhar o blog do projeto Data Science Brigade.


Olá, Rosie. Tudo bom?

Sei que ultimamente você e sua equipe andam muito atarefados com o trabalho, mas espero que tenha um tempinho para ler essa carta.

Seria injusto se eu começasse falando qualquer outra coisa se não parabéns! Parabéns pela iniciativa, pelos resultados alcançados até agora e, principalmente, por se propor a fazer um trabalho que precisamos tanto enquanto sociedade e nos propomos tão pouco em realizar enquanto indivíduos. Um ser robótico como você pode viver muito mais e analisar o passado mais seguramente, mas em minha restrita capacidade humana, percebo que nos distanciamos cada vez mais do bem comum em detrimento do bem própio. O surgimento de propostas como a sua vão completamente de encontro ao fluxo comum dos seres humanos. Parabéns de verdade!

Eu fiquei sabendo que há um tempo atrás vocês (da Serenata de Amor) começaram a ter alguns problemas com o pessoal da Câmara dos Deputados. Realizaram as denúncias de gastos suspeitos e simplesmente não obtiveram respostas minimamente consideráveis. Imagino o quão frustrante isso deve ser para você. Para nós, seus seguidores e cidadãos brasileiros essa realidade é revoltante!

A alternativa que encontraram para tentar contornar esse problema é o principal motivo pelo qual lhe escrevo. Você passou a utilizar o seu Twitter para avisar o deputado sobre as suspeitas em gastos encontradas e, em paralelo, dar publicidade ao fato em específico. Acho que foi um bom primeiro passo, agora precisamos avançar ainda mais.

Ao me deparar com suas postagens no twitter me veio a sensação de se colocar um suspeito de cometer um crime em uma espécie de "poste virtual". Com esse termo quero remeter mesmo às lamentáveis ocorrências onde a população civil prende suspeitos (ou mesmo criminosos comprovados) em postes em via pública para realizar a "justiça" da forma que bem entenderem. As penas nesses casos são tão lamentáveis quanto o crime realizado e, geralmente, se tornam ocorrências de novos crimes.

Uso essa analogia em função da manifestação pontual no Twitter parecer ser algo que tenta resolver um problema pela exposição, consequente humilhação e descrédito daquele que errou, e não necessariamente pela condenação ou questionamento do ato criminoso que veio a ser cometido (afinal a efetiva condenação de um indivíduo quem faz é o sistema judiciário). Pior, corremos o risco de cair no perigoso caminho de condenar primeiramente pessoas, e não atos. Já estamos um pouco nessa via, onde a corrupção e desvios comportamentais aparentemente ocorrem somente com "eles" (políticos, empresários, religiosos, poderosos, criminosos) e nunca com nós mesmos. Rosie, no mundo inexado de nós humanos, você precisa levar em consideração que nem sempre a compreensão de uma ação possui relação estrita com a intenção que a originou.

A sua vontade em trazer essa publicidade ao Twitter foi a de aumentar o acesso aos dados já públicos e a de promoção do debate incluindo mais gente na conversa. Acho que aqui também podemos trabalhar um pouco mais uma premissa importante: rede social como um ambiente de promoção de diálogo. Infelizmente isso não é o que temos percebido, principalmente em tempos tão críticos politicamente como os que temos vivido. Sabemos que nessas redes tendemos a nos firmar em bolhas sociais onde somos protegidos por "mais do mesmo". De opiniões sobre qual a cor do vestido até questionamentos filosóficos. Em um ambiente homogêneo é menor, quando não nula, a evolução dos elementos por troca de informação ou conhecimento.

Outro evento bastante comum nesses meios digitais, quando há algum resquício de heterogeneidade de pensamentos, é o combate em dentrimento de diálogo. E aqui eu preciso remeter ao que falei no início desse texto. Temos nos distanciado do bem comum e nos firmado no bem próprio. Provavelmente eu tenha uma visão consideravelmente enviesada, mas predominantemente em relacões interpessoais digitais os ânimos afloram para o desentendimento e o combate.

Como deve ter percebido, sou bastante cético quanto ao diálogo nas redes sociais. Entretanto não nego que sejam um meio efetivo para conseguir chegar até o cidadão. Pensando nas suas itenções quando trouxe a divulgação através do Twitter, acho que precisaríamos pensar em um meio mais apropriado para possivelmente promover algum debate, mas mais importante, potencializar a capacidade crítica das pessoas.

Dessa forma, eu sugeriria que houvesse a utilização de outro espaço virtual, preferencialmente fora dos domínios de grandes empresas digitais, para essa publicidade. Esse espaço deveria servir como um meio de potencializar a capacidade de compreensão de parte da realidade política do país. Talvez a forma mais eminente de começar a atuar nesse sentido, seja com dados históricos. A sua capacidade robódica é incrível e sei que poderia reunir inúmeros dados para nos ajudar a aprender com o passado para atuarmos no presente tentando melhorar nosso futuro.

Penso que precisamos tanto de apresentações gerais sobre os dados que você vem coletando e analisando, além de informações específicas dos Deputados. Informações gerais como:

  • Proporção de deputados que tiveram gastos suspeitos;
  • Dentre os deputados flagrados com irregularidades, proporção de deputados que foram notificados;
  • Proporção de deputados que responderam significativamente;
  • Proporção de parlamentares que devolveram dinheiro;
  • Relação de partidos e irregularidades em gastos;

As informações específicas de um Deputado também são importantes. Mas a apresentação com uma abordagem histórica desse indivíduo eu acredito ser mais construtiva do que a simples exposição pontual nas redes sociais. Já deve ter chego aos seus ouvidos biônicos uma representação dessa ideia que tive para apresentar as informações de um deputado:

Sugestão de painel com
informações de um deputado

Esse espaço também pode ser destinado para documentar o posicionamento oficial do parlamentar, ainda que seja com links para outros meios (inclusive a rede social do deputado) e resoluções de casos suspeitos detectados. Como um exemplo de consequễncia positiva, seria menor a chance de ser perpetuado para a eternidade digital apenas um tweet seu (Rosie) onde há somente a identificação de um suspeito que, eventualmente já "cumpriu sua pena" ou que esclareceu possíveis equívicos.

Eu acredito que focando em exibições de dados gerais e, no que diz respeito ao indivíduo, focar em disponibilizar dados históricos que alimentem a opinião pública com informações, a Serenata pode ser ainda mais amorosa contribuindo efetivamente com a potencialização diálogo além da vida digital.

O assunto é longo e o trabalho mais ainda. Então vou ficando por aqui para que possamos racionalizar um pouco sobre isso. Fico disponível para prosseguir nesse papo ;)

Abraço!

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