Manifesto cara a cara

sex 05 outubro 2018

A gente precisa voltar a se relacionar pessoalmente. Conversar olhando no olho. Ouvir as distorções das vozes, perceber os olhares de dúvidas, o coçar de cabeça distraído. Está faltando a gente perceber que do outro lado tem gente como a gente mas ao mesmo tempo completamente diferente. A convergência das diferentes realidades, contextos e experiências é o que nos move. Não no sentido estritamente econômico e monetário (medida pela qual o status quo prefere aferir suposta evolução). Experimentar as diferenças nos movimenta para aquilo que não estamos acostumados, nos move progressivamente para uma realidade melhor para um maior número de pessoas.

Negar os benefícios e vantagens da tecnologia, em especial relacionada à comunicação, é no mínimo ingenuidade. Entretanto, feito criança com brinquedo novo ou com aquele doce no fim de festa, parece que entramos em uma dimensão entorpecente que nos impossibilita perceber a realidade ao redor. Ao mesmo tempo que temos acesso à um mundo completamente novo de informações e conhecimentos nunca antes pensados na atual magnitude de distribuição, não aumentamos a nossa capacidade de empatia, compreensão, aceitação, diálogo, negociação e argumentação, dentre tantas outras características e habilidades. Muitas dessas competências são exercitadas e aprendidas na prática, no olho no olho, no relacionamento cara a cara.

Se comunicar e se relacionar parece óbvio e trivial. Entretanto o aumento da percepção das bolhas sociais escancara que estamos muito longe de saber lidarmos com gente. Muito menos com gente diferente. A segregação pela diferença, em maior ou menor amplitude, coloca a sociedade em um contexto de embates, conflitos, discussões destrutivas. Quem sabe até onde isso pode chegar! Nós somos seres diferentes com certeza. Cada um carrega consigo um universo de ideias, costumes, cultura, hábitos, conhecimento, limitações e virtudes. Segregar a partir do que é semelhante é comprometer a evolução a partir da descoberta do que é novo. Enquanto a variabilidade genética nos provê uma estrutura biológica mais forte, a variabilidade de ideias nos deixa mentalmente mais aptos a viver o que tiver que vir pela frente.

Temos visto constantemente diversos avanços e inovações tecnológicas que nos colocam em um novo patamar como sociedade. Seja com a inteligência artificial tornando robôs mais capazes ou com novos modelos de negócio moldando novas formas de se pensar a economia global. A verdade é que a velocidade com que as mudanças vem ocorrendo é inédita em nossa breve história. Agora está na hora de darmos um próximo passo na mentalidade de inovação. Olhando tanto para a técnica quanto para o mundo em que vivemos é chegada a hora de atuarmos de modo que a evolução tecnológica passe a nos impactar enquanto pessoas inseridas em uma sociedade e não somente enquanto peças em um jogo de compra e venda. Não há outra forma de atingir isso senão com relacionamento cara a cara.

Precisamos ir além de expandir e evoluir a tecnologia, precisamos aproximar verdadeiramente as pessoas. Todas. Quanto mais diferença melhor. É chegada a hora de colocar as pessoas no centro de tudo. Conectar para desconectar, programar para desprogramar, virtualizar para concretizar, ligar para desligar e a partir do que é atual nos remeter o que é primordial. Podemos encarar o que vem pela frente levando em consideração o que verdadeiramente faz parte de nós ou podemos seguir desgovernados para um destino que se mostra tudo, menos humano.


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